sábado, 18 de setembro de 2010

Depoimento: Suelen Alves

Novela “Viver a Vida” – Rede Globo – Quinta-feira, 15/04/2010
Depois de muito tempo sem um diagnóstico preciso, ela descobriu ter esclerose múltipla. Todos achavam que ia morrer, mas ela deu a volta por cima.
Assista ao vídeo em:

Células-tronco: milagres médicos não acontecem por acidente

Obama suspende restrições a células-tronco

Grupos de células-tronco embrionárias (arquivo)


Células-tronco têm a capacidade de se transformarem em qualquer outro tipo de célula
O presidente americano, Barack Obama, anunciou nesta segunda-feira o fim de várias restrições para pesquisas com células-tronco feitas com, verbas federais.
“Milagres médicos nao acontecem simplesmente por acidente”, diisse ele ao fazer o anúncio que representa uma grande mudança na política americana.
O ex-presidente George W Bush tinha bloqueado o uso de qualquer verba federal para pesquisas com linhagens de células-tronco criadas depois de 9 de agosto de 2001.
Analistas afirmam que a decisão de Obama também pode levar o Congresso americano a suspender uma outra proibição, a de gastar o dinheiro de impostos para criar embriões.
Polêmica ética
A proibição, conhecida como Emenda Dickey-Wicker, existe desde 1996 e é renovada todo ano pelo Congresso.
Células-tronco são células com a capacidade de se transformarem em outro tipo de célula humana, células de ossos, músculos ou nervosas, por exemplo.
Um embrião pode fornecer um estoque sem limites destas células. Mas o uso de células-tronco de embriões humanos em pesquisas é um assunto polêmico e alguns ativistas acreditam que isto não seria ético.
Cientistas afirmam que estas pesquisas podem levar a grandes avanços médicos, mas muitos grupos religiosos são contra.
A prática de criar embriões é rotineira em clínicas particulares, mas a proibição vigente nos Estados Unidos coloca obstáculos para pesquisas federais até mesmo antes das restrições impostas por Bush, o que obrigou os cientistas a usar embriões que sobraram de tratamentos de fertilização.
A proibição do uso de verbas federais significava que cientistas eram obrigados a separar qualquer pesquisa de células-tronco com verbas particulares de suas atividades financiadas pelo governo.
Interferência política
Correspondentes afirmam que a mudança é parte de um compromisso de Barack Obama, de deixar claro que seu governo quer que a pesquisa científica fique livre de interferências políticas.
Obama deixou claro durante sua campanha presidencial que, se eleito, iria reverter a decisão do governo Bush, que vetou duas vezes as tentativas do Congresso de suspender a proibição.
“Acredito que as restrições impostas pelo presidente Bush para o financiamento de pesquisas com células tronco de embriões humanos algemaram nossos cientistas e prejudicaram nossa capacidade de competir com outros países”, disse Obama durante a campanha.
O presidente George W. Bush e outros conservadores argumentavam que os embriões são vivos, humanos, e por isso não deveriam ser destruídos.
De acordo com o correspondente da BBC em Washington Kevin Connolly, assim como Bush, Obama tem crenças cristãs profundas, mas prefere definir a questão nos termos de restaurar a integridade científica ao governo.
Em uma entrevista à BBC em janeiro, Robert Evans, pastor e estudioso de bioética, afirmou que será contra qualquer medida que permite o uso de verbas federais para novas linhagens de células-tronco.
“O que (a medida) indica é que foi negado ao embrião humano o direito à vida”, disse.

Indicações de exercícios físicos para pessoas com esclerose múltipla

Do artigo ‘ Orientação de exercícios físicos para pessoas com esclerose múltipla‘, de Otávio Luis Piva da Cunha Furtado* e Maria da Consolação Gomes Cunha Fernandes Tavares**.     
  (…)  O conhecimento científico sobre a prática de exercícios físicos por pessoas com EM avançou significativamente nas últimas duas décadas. Nesse período, pesquisadores passaram a considerar a participação de pessoas com EM em programas que envolvessem exercícios em meio aquático, com ciclo ergômetros e com exercícios resistidos. Entretanto, nessa perspectiva, os diferentes tipos de progressão da EM, sua sintomatologia variada e os diferentes graus de incapacidade dificultam a elaboração de guias e padronizações para a orientação de exercícios para essa população. No entanto, os estudos mostram que indivíduos com leve a moderado grau de acometimento podem beneficiar-se com programas de exercícios físicos similares àqueles existentes para a maioria da população, de acordo com as orientações do American College of Sports Medicine (ACSM) (POLLOCK et al, 1998).
     Considerando o crescente número de pesquisas com exercícios físicos para pessoas com EM e sua conseqüente indicação para a promoção de saúde e qualidade de vida dessas pessoas, apresentaremos algumas diretrizes básicas que consideramos pertinentes para a orientação de exercícios físicos para essa população.
    O primeiro passo, antes de iniciar qualquer programa com exercícios físicos para pessoas com EM consiste em compreender o quadro clínico do aluno. Nesse aspecto seu médico deve ser consultado. Esse profissional poderá fornecer informações precisas a cerca do estágio de progressão da doença e das especificidades do quadro clínico atual. Poderá ainda indicar dificuldades e limitações fisiológicas peculiares de cada paciente, o que pode ser fundamental para a determinação de um programa adequado de exercícios. O contato com o médico deve ser mantido para que a constante troca de informações possa permitir intervenções coerentes ao longo do tempo.
     A segunda etapa a considerar é verificar o histórico de atividades físicas e as principais dificuldades decorrentes de incapacidades. Informações sobre a adaptação de exercícios e preferências do indivíduo por alguma atividade específica são valiosas e devem ser registradas. A prática de uma atividade prazerosa pode influenciar favoravelmente na adesão ao programa.
    Por último, destacamos a necessidade de avaliação da função motora. O estabelecimento de parâmetros para avaliação pode ser útil para quantificar a evolução do aluno. Em nossas pesquisas temos adotado o uso de alguns testes simples para avaliação de pessoas com EM. Nesse sentido, manobras simples poderão ajudar a reconhecer locais específicos de fraqueza. Rapidamente, músculos flexores e extensores dos braços, mãos, pernas e pés podem ser testados através de movimentos de “puxar” e “empurrar” contra a mão do examinador. A avaliação da função de membro inferior inclui o teste de caminhada, que consiste na anotação do tempo para um indivíduo percorrer uma distância padronizada de 7,62 metros. Outro teste, como o Timed Up and Go de Podsiadlo e Richardson (1991) também pode ser considerado, consistindo na verificação do tempo decorrido para o indivíduo levantar de uma cadeira, andar três metros, virar, voltar e sentar novamente. Para avaliação da função de membro superior sugerimos o teste Box-and-Block, que consiste na tarefa de transporte de pequenos cubos de madeira com 2,5cm de lado, durante 1 minuto. Esses blocos devem ser conduzidos de uma extremidade a outra de uma caixa separada ao meio, sendo feita a anotação do escore obtido em duas tentativas alternadas, para membro superior esquerdo e direito (MATHIOWETZ et al, 1985).
    A atenção ao progresso da doença é importante para a orientação de exercícios físicos para pessoas com EM. Se houver exacerbação dos sintomas, deve-se interromper o exercício até que ocorra sua completa remissão. Após o retorno, o programa deve ser revisto e adaptado às condições presentes. Essas orientações geralmente são úteis para pessoas com EM recorrente-remitente. Na presença de indivíduos com tipo progressivo, ou seja, sem remissão da doença, a meta do programa deverá ser de simplesmente reduzir a deterioração física e otimizar as funções remanescentes (MULCARE, 1997).
    Considerando as capacidades, limitações e objetivos pessoais de cada indivíduo pode-se estabelecer o programa mais adequado de exercícios físicos. De maneira geral recomenda-se exercícios de volume e intensidade moderada, com sessões em dias intercalados que permitam sua adequada recuperação.
Exercícios aquáticos
    Exercícios aquáticos são apropriados para pessoas com EM. A flutuabilidade e viscosidade, características do meio aquático, reduzem o impacto da gravidade e conferem maior equilíbrio e amplitude de movimento de músculos muito fracos para desempenhar a mesma tarefa em terra. Temperaturas entre 27 e 29° C parecem ser ideais, principalmente para pessoas com sensibilidade ao calor, embora, para algumas pessoas, seja tolerável temperatura até 34°C (PETERSON, 2001). Apesar do efeito desejado de dissipação do calor em meio aquático, temperaturas abaixo de 27° não são recomendadas devido ao risco de aumento da espasticidade (WHITE e DRESSENDORFER, 2004).
    O desenvolvimento das capacidades de força e resistência muscular localizada podem ser alcançados em meio aquático pela participação em aulas conhecidas como hidroginástica ou hidroterapia. Esse tipo de atividade é freqüentemente ofertado por academias de ginástica e natação, consistindo na aplicação de exercícios específicos. O incremento da intensidade do esforço pode ser alcançado com a utilização de aparelhos específicos como caneleiras, coletes e halteres. Já para a melhora do condicionamento aeróbio podem ser administradas sessões de natação, na medida em que essas não signifiquem esforços muito intensos que elevem significativamente a fadiga.
Exercícios aeróbios
    Os programas para desenvolvimento da capacidade aeróbia de pessoas com EM, claramente incorporam as orientações do ACSM (POLLOCK et al, 1998). Nos estudos realizados, basicamente encontra-se a seguinte estrutura:
Freqüência de treinamento: ao menos 3 dias por semana.
Intensidade de treinamento: 65 – 70% da freqüência cardíaca máxima, ou 55-60% do VO2max.
Duração do treinamento: 30 minutos de atividade aeróbica contínua ou intervalada.
Modalidade de treinamento: ciclo ergômetro horizontal ou vertical de pernas e braços.
    Atividades de aquecimento são consideradas importantes, dada a coerência em sua adoção por preparar fisiologicamente o organismo para a tarefa principal. Apontamos como principais as rotinas de alongamento, atividades lúdicas ou mesmo a realização do exercício principal do programa em menor intensidade. Medidas de freqüência cardíaca podem ser úteis para o acompanhamento da intensidade do esforço.
     Para algumas pessoas com mínimo ou nenhum déficit motor pode-se incluir sessões de caminhada ou até mesmo de corrida. Como déficits de equilíbrio e coordenação motora são comuns nessa doença, a definição do método a ser adotado deve levar em consideração as possibilidades e interesses de cada participante.
Exercícios de fortalecimento muscular
    Conforme fora proposto por Petajan e White (1999), a aplicação de exercícios para desenvolvimento da força muscular deverá seguir uma lógica crescente de funcionalidade onde, para aqueles com maior déficit motor sugere-se a aplicação de movimentos passivos, como lentos alongamentos para os principais grupos musculares. Para indivíduos com maior nível de força são indicados alongamentos ativos e exercícios resistidos, com ou sem a ação da gravidade e com número de repetições próximo ao nível da fadiga. Os autores sugerem atividades como Yoga e Tai Chi. Indivíduos com pouco ou nenhum déficit motor poderão seguir programas similares aos propostos para pessoas saudáveis:
Freqüência de treinamento: 2 – 3 sessões semanais.
Volume de treinamento:
8 – 10 exercícios resistidos dinâmicos (isotônicos) que envolvam grandes grupos musculares.
1 – 2 séries.
8 – 12 repetições máximas (repetição máxima é o número máximo de vezes que uma carga pode ser levantada antes da fadiga concêntrica e com execução correta da técnica do exercício)
Modalidade de treinamento: pesquisadores têm utilizado diferentes e eficazes modos de treinamento de força para pessoas com EM – máquinas e pesos livres (KASSER e MCCUBIN, 1996; WHITE et al, 2004), peso corporal contra a ação da gravidade aliado ao uso de coletes com pesos (DEBOLT e MCCUBBIN, 2004) e faixas elásticas com diferentes graduações (Theraband) (ROMBERG et al, 2004).
    Considerando as possibilidades de cada aluno, a progressão de um treinamento para desenvolvimento de força em pessoas com EM pode sofrer grande variação no seu planejamento e progressão. Pessoas com pouco ou nenhum déficit muscular podem necessitar de modelos de periodização que alterem a intensidade e volume de treino ao longo do tempo para otimizar os ganhos de força. Em outros casos, a instalação precoce da fadiga poderá implicar na realização de um volume reduzido de exercícios, porém, configurando-se ainda como um estímulo suficiente para a manutenção ou mesmo o desenvolvimento da força.
    Como em alguns casos há redução na velocidade de resíntese de fosfocreatina de pessoas com EM (KENT-BRAUN et al, 1994a), deve ser permitido um maior tempo de recuperação entre séries e entre exercícios que envolvam grupos musculares similares. Nesse sentido, o contato entre o profissional responsável pela orientação do programa de exercícios e o aluno será importante para a determinação do esforço e do tempo adequado de recuperação.
Exercícios de flexibilidade
    As orientações básicas do ACSM são de que exercícios de flexibilidade sejam incorporados à rotina de exercícios e permitam o desenvolvimento ou manutenção da amplitude de movimento articular. Os exercícios deverão incluir os principais grupos musculares, com freqüência de 2 a 3 vezes por semana (POLLOCK et al, 1998). Para pessoas com espasticidade é recomendado o alongamento antes e após a sessão de exercícios. O alongamento deve ser realizado de maneira lenta e confortável, objetivando a redução do tônus muscular. Cada posição deve ser mantida por 20-60 segundos para máximo benefício (WHITE e DRESSENDORFER, 2004).
Lian Gong e Yoga
    Uma outra possibilidade de exercícios físicos para pessoas com EM são as atividades conhecidas como orientais ou alternativas. Dentre as estudadas para pessoas com essa doença, destacam-se o Lian Gong e Yoga. Tais práticas são caracterizadas por lenta movimentação e manutenção de posturas pré-estabelecidas. Elas podem ser adaptadas conforme a necessidade de cada aluno, através do apoio em cadeira, parede ou mesmo pela realização das tarefas no solo. Dentre os benefícios, destacam-se a sensação de relaxamento, descoberta de novas sensações corporais, (USHIROBIRA, SIVIERO e TAVARES, 2005) e redução da fadiga (OKEN et al, 2005).
Orientações para a prática de exercícios físicos por pessoas com esclerose múltipla
    Baseados em informações contidas nos diversos estudos divulgados na literatura científica e em nossa experiência com a orientação de exercícios físicos para pessoas com EM, exporemos, a seguir, alguns pontos que consideramos relevantes para uma orientação, segura e eficaz, de exercícios físicos para pessoas com EM:
Estabelecer contato com o médico do aluno a fim de obter informações relevantes para a elaboração do programa de exercícios físicos.
Cuidados para controle da fadiga.
Elaborar o programa contemplando a alternância de períodos de esforço e descanso.
Preferir o horário do dia em que o aluno menos sinta os efeitos da fadiga.
Cuidados para evitar o aumento da temperatura corporal.
Algumas estratégias têm sido sugeridas, incluindo o uso de salas climatizadas ou bem ventiladas, a adoção de práticas no período da manhã, hidratação adequada (MULCARE et al 2001) e imersão do corpo em água fria até a cintura, exceto em situação onde possa ocorrer exacerbação da espasticidade (WHITE, WILSON e PETAJAN, 1997).
Cuidados com a espasticidade.
Evitar temperatura em meio aquático, inferior a 27º.
Evitar exercícios com alta velocidade de contração.
Estabelecer o programa de exercícios físicos conforme as preferências do aluno e de acordo com suas capacidades. Em alguns casos, o aluno pode não ser capaz de atingir e manter uma intensidade de esforço suficiente para promover alterações no sistema aeróbio. Nesses casos, a opção por exercícios de fortalecimento muscular pode ser a melhor alternativa.
Facilitar o acesso a sanitários. Pessoas com EM freqüentemente apresentam urgência urinária.
Manter diálogo constante com o aluno. Esse hábito possibilitará ao profissional o reconhecimento do impacto diário da fadiga e, assim, facilitará o dimensionamento da carga e volume de cada sessão de treino.
Embora a prática de atividades em ambiente aquático seja indicada, faz-se necessário evitar temperaturas inferiores a 27°, devido ao risco de exacerbação da espasticidade, e superiores a 29°, pois algumas pessoas apresentam sensibilidade ao calor, podendo ter aumento da fadiga e presença de distúrbios oftalmológicos.
Evitar a prática de exercícios físicos em períodos de surto da doença. Após a recuperação do aluno a atividade poderá ser reiniciada e um novo programa deverá ser estabelecido.
    O resultado de estudos publicados nos últimos anos tem apontado o aspecto salutar da adoção de um estilo de vida ativo por pessoas com EM. Desse modo, esperamos que a mudança do antigo paradigma de conservação de energia facilite às pessoas com EM a exploração e reconhecimento de suas capacidades e potencialidades, possibilitando a melhora de aspectos de sua qualidade de vida e em seu desenvolvimento pessoal. Finalmente, entendemos como fundamental que o profissional de educação física esteja preparado para o desafio de conduzir propostas de exercício físico para essa população, estando alicerçado pelo conhecimento mais recente de sua área e atento aos novos avanços. (…)
* Mestrando – Atividade Física, Adaptação e Saúde (FEF/UNICAMP).
** Médica Fisiatra, Livre-Docente, Professora do Departamento de Estudos da
Atividade Física Adaptada (FEF/UNICAMP).
Fonte: http://www.efdeportes.com/ Revista Digital – Buenos Aires – Año 11 – N° 99 – Agosto de 2006 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Há grandes diferenças entre as adultas e embrionárias, diz o professor Júlio Voltarelli

Desde que se intensificaram no país os debates referentes a pesquisas com células-tronco embrionárias, depois do advento da aprovação da Lei de Biossegurança pelo Congresso Nacional, em 2 de março, o imunologista Júlio Voltarelli vem recebendo mais telefonemas de jornalistas, pedindo detalhes sobre o estudo que conduz na Unidade de Medula Óssea do Hospital das Clínicas/Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto.
“O assédio é grande. Para muitos leigos, célula-tronco é tudo igual”, brinca o professor. Obviamente, não é: além das peculiaridades técnicas envolvendo a cultura e o emprego destas promissoras fontes terapêuticas, a modalidade “adulta” fica livre dos dilemas éticos embutidos na que envolve criação e destruição de embriões. Outra diferença: o estudo com células adultas está relativamente adiantado, trazendo esperanças concretas a portadores de doenças auto-imunes como esclerose múltipla e até diabetes – ambas focalizadas pela equipe do Dr. Voltarelli.
Veja, a seguir, entrevista concedida pelo professor ao Centro de Bioética do Cremesp.
Centro de Bioética – Como começaram suas pesquisas envolvendo células-tronco adultas?
Júlio Voltarelli – Partiram de minha experiência clínica com pacientes reumáticos e, em segundo lugar, por haver tido a oportunidade de acompanhar o início das pesquisas voltadas a lúpus e esclerose múltipla em unidades norte-americanas de transplante, durante estágio que fiz em San Diego em 1999 e 2000.
Voltando ao Brasil, organizei workshop em Ribeirão Preto, do qual participaram alguns convidados do exterior e, juntos, decidimos que iríamos mexer especificamente com lúpus; esclerose múltipla e esclerose sistêmica, as doenças mais graves que estavam sendo tratadas com células-tronco. A partir daí iniciamos estudo cooperativo com outros centros, principalmente o Hospital Albert Einsten que, em 2001, realizou o primeiro transplante contra esclerose múltipla.
Cbio – A técnica para a captação e a utilização de células-tronco adultas é muito diferente em comparação a que utiliza células embrionárias?
Voltarelli – A preparação da primeira é bem diferente. O que fazemos é dar ao paciente o fator de crescimento de granulose (G-CSF), hormônio que leva as células-tronco a se “desgrudarem” da medula e irem para o sangue. Depois, o sangue é coletado, submetido a uma cultura sérica e congelado em nitrogênio líquido. A pessoa, então, é submetida à quimioterapia e imunoterapia, que causam a destruição de seu sistema imunológico, reconstruído posteriormente pelo transplante do material coletado e congelado.
Cbio – É mais fácil usar células adultas, já que não há o entrave ético vinculado ao uso de embriões?
Voltarelli – Bem mais fácil, pois as células adultas estão fora de toda essa celeuma. Não é preciso a autorização do casal de doadores de gametas, enfrentar tanta gente contrária… Fora as éticas, há também dificuldades técnicas ao uso de células embrionárias. Uma delas: devemos encontrar uma forma de dar origem à linhagem celular que queremos, excluindo a possibilidade de gerar teratomas.
Estudos com células adultas também são mais imediatos, cerca de mil transplantes já foram realizados.
É claro que, para terapia regenerativa, células-embrionárias se constituem numa promessa melhor, no sentido de você poder injetá-las diretamente numa lesão de medula espinhal ou na retina, por exemplo, e estabilizar o problema. Veja: nosso grupo faz um tipo de terapia regenerativa, mas queremos regenerar o sistema imunológico, não um órgão em si, como o pâncreas. Na verdade, promovemos terapia antiinflamatória para a qual células adultas já dão conta.
Cbio – Quantos pacientes já receberam de seu grupo autotransplante de células-tronco? Todos se beneficiaram?
Voltarelli – Tratamos 30 pacientes com esclerose múltipla, dos quais 22 estão com a doença estabilizada; 16 com doenças reumáticas, sendo que dez melhoraram bastante e, depois disso, entramos em outra etapa, voltada ao diabetes. A doença mais difícil de se lidar talvez seja o lúpus, considerando-se que o paciente, às vezes, apresenta doença renal ou acometimentos no pulmão e cérebro, que resultam numa tolerância baixa ao processo.
Em breve, em parceria com o (Instituto Israelita) Albert Einstein, pretendemos usar transplante contra esclerose lateral amiotrófica (ELA, doença que se caracteriza pela degeneração progressiva dos neurônios motores no cérebro e na medula espinhal). A pesquisa já foi aprovada por nosso Comitê de Ética, mas ainda estamos buscando financiamento para promovê-la. Temos planos até para tratar fibrose pulmonar, como a ELA uniformemente fatal e que, por isso, carece de alternativa urgente de tratamento.
Recentemente escrevemos um capítulo de um livro do professor Richard Burt, da Northwestern University de Chicago, autoridade mundial no assunto, falando a respeito de transplante no combate da asma, que apesar de não ser doença auto-imune, é imunológica. Ainda não contamos com protocolo no tema, porém existe uma base racional que indica a possibilidade do procedimento.
Cbio – Em média, depois de quanto tempo o transplantado apresenta melhora?
Voltarelli – Tudo depende da doença, mas, em geral, os resultados são imediatos: a imunossupressão é muito forte, estabilizando o sistema imunológico da pessoa. Por exemplo, em esclerose múltipla os surtos são interrompidos. Quanto ao diabetes, a melhora é quase imediata, o paciente pára de tomar insulina.
Cbio – Seu grupo é pioneiro no tratamento com células-tronco adultas em diabetes?
Voltarelli – Pelo que eu saiba, não existe no mundo nenhum protocolo com estratégia semelhante. Um outro método, diferente, implementa transplantes de ilhotas pancreáticas.
O nosso é bastante promissor em diabetes do Tipo 1, mas há uma limitação, ou seja, não estamos tratando pacientes com a doença estabelecida a longo tempo e, sim, logo que aparecem os sintomas. Buscamos, no fundo, impedir que a pessoa fique diabética.
Começamos com um grupo de jovens, capaz de entender as implicações de um tratamento que acarreta certo risco, inclusive de morte, por causa da imunossupressão e quimioterapia. Não quisemos envolver apenas as famílias deles, deixar a responsabilidade da decisão apenas nas mãos dos pais.
Devido a essas implicações não incluímos crianças. Só que os resultados são tão animadores que estamos revendo tal decisão.
Cbio – Com a aprovação pela Câmara da lei de Biossegurança e a intensificação do debate sobre o emprego de célula embrionárias existe a hipótese de que os projetos com células-tronco adultas sejam relevados a um segundo plano?
Voltarelli – Não, porque tais estudos já estão funcionando.
As coisas mudariam se fosse feito estudo comparativo randomizado, no qual fossem superadas dificuldades relativas ao cultivo de células embrionárias em laboratório; contando com garantia das condições de segurança; derivando exatamente as linhagens que a gente quer; tratando alguns pacientes…
Enfim, se pudéssemos demonstrar que células embrionárias são melhores do que as adultas. Se isso ocorresse, pararíamos de usar células adultas e usaríamos só as embrionárias

Patologia


As regiões desmielinizadas são localizadas e assumem o aspecto de placas, que mais tarde esclerosam (endurecem).
As lesões iniciais caracterizam-se por infiltração de leucócitos mononucleares em volta das vénulas, incluindo linfócitosplasmócitos e desmielinização individual dos axónios adjacentes.
Lesões tardias são geralmente de todo um feixe de axónios.
Há infiltração de macrófagos e microglia com aspecto de célula de espuma, ou seja, que fagocitaram grandes quantidades de lípidos/lipídios, certamente mielina.
As lesões variam de localização com o tempo, havendo regeneração da mielina e formação de novos focos de agressão.
Um modelo animal da doença pode ser obtido por intermédio da inoculação de proteínas da mielina na corrente sanguínea de uma cobaia. As células T activadas do animal causam a doença em outros não inoculados. Este facto fortemente sugere uma etiologia auto-imune para esta condição patológica.

Epidemiologia


A maioria dos casos é diagnosticada em adultos jovens, sendo raros os diagnósticos em pessoas com mais de 50 anos.Na Europa, os países escandinavos são os mais afetados. A presença da doença em um familiar representa uma possível predisposição genética: a probabilidade de se vir a manifestar a doença é 15 vezes maior, neste caso.
Estimam-se mais de um milhão de casos mundiais diagnosticados, dos quais 450 mil só na Europa. Em Portugal, há mais de 5 mil casos diagnosticados.

Manifestações clínicas


O início pode ser dramático ou insidioso.
Os sintomas são diversos e podem ser devidos a pouca ou demasiada excitabilidade das vias, de acordo com o tipo de neurónio (excitador ou inibidor) que é afectado nessa região.
As manifestações podem incluir sintomas por falta de função de vias excitatórias, tais como:
  • Ataxia (os membros superiores e inferiores se movimentam e tremem involuntariamente);
  • Movimentos irregulares dos olhos, tais como nistagmus e oftalmoplegia internuclear;
  • Defeitos na pronunciação das palavras (disfasia);
  • Neurite retrobulbar;
  • Disfunção sexual e urinária;
  • Depressão e dificuldades de memória.
A fadiga é um sintoma muito frequente e bem conhecido da EM. Mas porque pode também ser um sinal de outras doenças, não é imediatamente identificado como sendo causado pela EM. A fadiga se manifesta muitas vezes sob a forma de períodos que podem durar alguns meses, durante os quais a disposição se esgota diariamente, após um pequeno esforço. A fadiga ocorre quer na EM em forma de surtos, quer nos tipos mais progressivos da doença.
Também ocorre devido à disfunção das vias inibitórias:
A progressão da doença é bastante variável, distinguindo-se três subtipos de EM, de acordo com a sua evolução. A maioria dos doentes segue um curso de remissões alternadas com exacerbações.
Cerca de 10-15% segue um curso mais grave e inexoravelmente progressivo, e em 25% dos casos a progressão é lenta, com sintomas moderados.